sábado, 28 de janeiro de 2012

Falsa entrevista para falso programa em veículo quebrado

Apontam para uma cadeira. Poltrona de analista, corpo de cobra, silhueta de moça desejável. A mulher devagar protegendo as meia-calças de um rasgo, se dirige ao objeto. Senta-se lentamente. Possui: olheiras de extração em poço profundo, cardumes de peixes nos olhos em migração de fecundação, pele que engana a idade para os alpinistas das bochechas. Um carimbo de selo escandinavo mais filosofia de trincheira alemã. O gosto do café nas feições. A apresentadora fala seu nome. Diz que é um prazer mas não geme, nem cochicha sacanagem. Começam as atividades.

Apresentadora
Em uma entrevista recente, você disse que escrever é uma forma de oxigenar as paisagens e livrar um pouco o trabalho das árvores. O que você quis dizer com isso?

Entrevistada
Eu teria que escrever para responder essa pergunta (coloca a mão na gola, procurando uma ventilação)

Apresentadora
Alguns críticos taxam seu trabalho de inútil pedreiras e descartável para os livros escolares. Como você se sente?

Entrevistada
O primeiro poema que pensei em escrever , a crítica batucou a atmosfera da sala em tom de marcha de funeral. Ao críticos que mais gosto morreram de vida e de lá só dizem coisas boas, como o prazer do silêncio que emudece e como misturar concreto com verbo e tatuar as estátuas.

Apresentadora
A poesia vascular, como você chama, já chamou a atenção de alguns grandes autores como Francesco Corredor e Lácio Falcão. É preciso criar um corpo e retirar suas funções para que alguém respire sem aparelhos do outro lado, o lado da leitura. Depois da Poesia Disco Alvo, Poesia Gigafera e a Poesia de Mangue Esmeralda você acha que finalmente conseguiu emplacar com esse novo movimento?

Entrevistada
É claro que há os enfeites de saliva e as placas sem luz. Disco uma sequência de números toda vez em que o telefone me exige palavras com alguém, uma rotina que a atrite e tendinite gostam e aplaudem. Se eu tivesse duas razões para pegar uma janganda, me atiraria ao mar para salvar as razões. A poesia é a contabilidade da vida, o acerto que se faz, as ranhuras no óculos escuros. Um sexo silencioso que carcareja para adotar filhos e engravidar lugares vazios. Acho que o resto é questão de vassoura. Mas os pedaços que caem e descolam de uma atenção desnutrida, o rim convulsionando na calçada da lanchonete, alguém tem que busca para salvar. Guardo a coragem para tempos difíceis nos tapetes e nos telhados. As imagens das palavras estão cheias de botox, péssima maquiagem. É preciso desconfiar as paredes. Desiquilibrar o e pedaço de chão. Isso é um movimento, já a coreografia é reportagem. Poesia é coisa que pisca e não se enxerga.

Para finalizar gostaria de agradecer a vocês que nunca passarão esse programa. Não gostaria que as pessoas pensem que escrevo por um motivo. Nunca criei nenhum poema, apenas casei com os momentos que abortei e meus filhos riem da mãe a escravizando para terem mais motivos para se divertirem. Roubei meus próprios bolsos e farejo deslocamentos de ar para o fôlego.

Apresentadora
Fiquem agora com o esquecimento e boa noite para quem acredita em finais.

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